19.7.10

Conversa minha com Marcelo Novaes


 
Prezados leitores, tive a felicidade de ser entrevistado pelo escritor Marcelo Novaes, esta entrevista somada a que concedi ao jornalista  Oscar D'Ambrósio na rádio Unesp esclarece mais minha visão da Poesia e da função do escritor. A  Marcelo meu agradecimento, a vocês uma boa leitura! Segue abaixo a entrevista.

 
 
MN: Anderson, existe o anonimato e, eventualmente, a solidariedade oculta [ou subjacente, já que dependemos uns dos outros; quer queiramos, ou não]. A solidariedade ativa é rara. Porque as pessoas tanto se espantam com o abraço? [Falo do abraço não-protocolar].


AF: Este é um bom tema filosófico como o perdão, o amor e a piedade, além de outros. Entendo que sua pergunta talvez se refira à solidariedade entre escritores e artistas, mas considero esta solidariedade quase inexistente, são sempre poucos os amigos e muitos os egos com os quais você dia a dia vem a conhecer. Mas se há nesta pergunta uma implicatura maior, eu prefiro refletir o seu sentido de sinceridade. É bom abraçar quem amamos, mas abraçamos porque somos sinceros em amar. Além disso, o próprio gesto em si contém dois significantes: a abertura ao outro cujo sentido implícito é a renúncia de si mesmo, como a recepção deste outro que por sua vez significa uma forma de identificação, isto é, de se tornar este outro. Agora é interessante a sua referência à palavra ‘espanto’, cujo sentido original é afugentar, talvez por ser raro hoje sermos sinceros. Esta aí algo de realismo mágico e me interessaria escrever um conto sobre isto, pois ser sincero é algo de espantoso, já que estamos habituados à mentira e não a verdade. Imagino agora a história de uma menina de classe média que nunca foi abraçada em sua vida e ao receber o abraço de um estranho, quem sabe um menino de rua, espanta-se, e, fica dias e dias imaginando aquele abraço. Ou quem sabe, uma história de seres cujo nome é abraço, gostei muito dessa idéia.



MN: Querer o sacerdócio, na juventude, é uma das possíveis maneiras de idealismo. Ou fuga. Encontrou mais idealistas ou "fujões" no Seminário? Pelo que viu e vê, a teologia costuma aperfeiçoar este idealismo originário-juvenil, ou o arrefece? Vejo teus personagens tanto perambulando sozinhos [por vezes, se esquivando...], como Invocando Tempos e Mistérios em Si Mesmos? São esquivos, conjuradores, ou esquivo-conjuradores. Há outros também, dos quais falarei, mas isso me remeteu a essa possível ambivalência [distribuídas nas mesmas pessoas, ou pessoas diferentes] dos seminaristas. Fale sobre isso: tanto da sua experiência com esse tipo de idealismo, como desses perfis de personagens.


AF: Imagino que você deve ter entendido que fiz seminário católico, mas não, fiz um seminário protestante, é claro que tentei ingressar, lembro até que por seis meses troquei cartas com um padre jesuíta, pois era minha intenção ser missionário, queria muito evangelizar certas regiões do Brasil, havia até viajado para a cidade de Anchieta no Espírito Santo conhecer o seminário, mas minha família se opôs a esta decisão, e vim a fazer então um seminário protestante, a rigor, o propósito ali não era fugir de algo, mas de entender um mistério que me fascinava: Deus. Sobre essa questão dos meus personagens serem seres esquivos, não saberia dizer ao certo se fogem de algo, sempre os imaginei buscando, talvez possa se dizer que é necessário se esquivar de algo para buscar outro, mas não sei dizer com muita certeza.




MN: Veja você: às vezes [!] ainda precisamos do Coro Grego, com a Voz ao fundo designado nossas culpas, sejam fúrias, Erínias ou Eumênides amansadas. E este Coro costura Tempos e Civilizações: daí podermos enxergar o sumério Gilgamesh ao lado de Prometeu, na tua escrita. Para um junguiano você é um prato cheio! Mas me diga, meu amigo, enquanto Poeta: por que ainda habitamos este mesmo Cenário? O plano de fundo da Poesia é o teatro e a Tragédia Grega?



AF: Não diria que o plano de fundo da poesia é a tragédia grega, mas a tragédia como símbolo. Neste poema “Erro” em que se realiza um diálogo entre um deus imortal e um mortal desejando a eternidade, além de serem dois personagens que representam duas culturas distintas, eles estão no poema como símbolo, e o símbolo me proporciona uma leitura além do próprio texto poético. Prometeu em si simboliza uma sociedade organizada a partir da própria razão deificada a ponto de se tornar a base da sociedade helênica. Já a sociedade judaica, em sua história, e isto me refiro ao livro de Êxodo, organiza-se a partir de uma busca da divindade. Ao ler o livro de Gênesis que tem como base mítica o mito de Gilgamesh, você nota um homem expulso do éden (símbolo da vida eterna com Deus) e que a partir disto buscará reconciliar-se com Deus para ter a imortalidade – pensamento este que se estende até a teologia cristã. Por sua vez, a cultura grega, se fundamenta em sua própria razão independente dos deuses, ou seja, um homem que se descobre divino em sua alma – e aqui a representação de Prometeu, um deus que concede a divindade ao homem. Se trata, portanto, de um símbolo, a presença de dois personagens de culturas diferentes e que a partir de um diálogo demonstram a natureza e a história humana do ponto de vista da busca e da conquista. O plano de fundo então da Poesia não é a meu ver a tragédia grega, mas a própria tragédia como linguagem de um símbolo.


MN: Da mesma maneira que você traz o Cenário Ancestral pro texto, "brinca" [to play, como no teatro: brinca sério] numa narrativa com crimes e vícios diversos em expressões etiquetadas em inglês [nada mais "cool"]. Esse contraste traz para a nossa desordem uma face aparentemente "clean', ao menos no dizer, que me lembra o contraste entre cenário e enredo no filme "Gêmeos, mórbida semelhança", de David Cronenberg. Há o Azul ao fundo, e seringas ao chão. Nós andamos a estetizar a sujeira, e a mascarar as coisas, chamando merda de ouro/ estamos dando “nomes lights” às coisas podres ou por apodrecer? [Devo dizer que compreendo perfeitamente a lógica-didática implicada na "estetização do hediondo" e no contraste entre figura e fundo, conteúdo e estilo]. Estamos nos aperfeiçoando no cinismo? As pessoas fingem que se chocam ou se chocam [de verdade] com a barbárie rosa-choque? A maquiagem é, mesmo, nosso gênero de primeira necessidade, ao animal humano? [“Ó triste e enfadonha persona excessiva...”].


AF: Esta aí um outro tema filosófico muito interessante, a empatia. O que é sentir empatia, senão estar no lugar do outro, ou, identificar-se. Aqui está um sentimento que o escritor desenvolve o de se identificar com suas ‘personas’, ou seja, de sentir por elas certa empatia. Mas seria aí o escritor um cínico? Sim, se no sentido de vestir a farsa da persona, isto é, o escritor representa seu tempo, o que mais fará senão dizer por um processo de empatia o que se passa no seu mundo? Não vou dizer que é fácil sentir empatia, porque ela traz em si um certo sofrimento que às vezes é insuportável ao escrever. Imagine você como poeta escrever sobre uma criança de apenas 5 anos idade que é morta por seus irmãos, ou sobre uma mãe a jogar seu filho numa fossa, por mais que esteticamente seja isto do ponto de vista do leitor, ‘Ligth’, é para o escritor dolorido poetizar acerca, e o que o leva a fazer isto senão uma necessidade de dizer?, a estética do poema é uma escolha, somente.



MN: Como fazer, poeticamente, que o fascínio pelo Divino catalise o Humano e se Derrame sobre ele? Esse é um trabalho digno de Pentecostes. Por outro lado, da mesma forma que um bom professor pode seduzir maus alunos para uma matéria difícil, revelando-lhe as "sutilezas das cores ocultas" por sob a aparente aridez [ou "pouco charme"], você se vê habilitado para Evocar tal Fogo dos Céus e Astros?



AF: Eu leio a Bíblia em sua versão satânica (herege), a exemplo de William Blake que lia da mesma forma, e lembrando que os profetas referiam-se ao Diabo a andar pelos céus, creio que o fogo que evocaria viria de cima sim, mas por crer que o Inferno esteja nos céus e não embaixo dos meus pés. Mas... costumo rezar antes de escrever um poema.


MN: Provérbios são boas formas de dizer. Números dão verossimilhança ao dito [eventualmente, até pela estranheza!]. Você usa ambas as "fórmulas" ou "modos" [penso na palavra fórmula sem qualquer tintura pejorativa, que fique claro]. Fale um pouco sobre isso.



AF: Sim. Palavras e números combinam muito bem, e, como pitagórico e, cabalista, palavra e número existem como os versos contrários de um mesmo espelho. Mas isto seria o mesmo que dizer que matematizo a palavra, de certo modo não negaria, embora prefira lhe dar um outro nome, disciplina e método.

Bem, meu processo de escrita é muito demorado, não consigo escrever um texto em horas, sou de meditar muito o tema, antes mesmo de me por à prova da escrita. Fico a buscar a frase que conduzirá o texto e que por sua vez delimita seu território, então, há vez em que um tema me toma por meses, outros semanas. Por exemplo, o poema Canção para o querubim de Ezequiel cap. 28 levei seis meses estudando a simbologia deste poema e sua temática, neste, concordo haver dentro uma construção matemática aliada a palavra, isto porque o poema é todo construído pensando as dez sephirot da cabala e sua relação com o pensamento pitagórico. Há um método e este método de trabalho importa na construção do poema ou da prosa e ao meditar o método estou meditando o poema ou o conto em sua construção interna.


MN: Lendo você, eu penso em Cortázar. Rótulos às vezes confundem, e o "realismo fantástico" não é um rótulo tão claro para tantos leitores: mais se parece com um amplo guarda-chuva, onde tantos e tão distintos podem se abrigar. Quando falo em Cortázar, penso em dois vetores claros: o onírico e o paródico. Uma paródia que soa como um sonho. Cortázar era o tipo de escritor que aproveitava muito seu material onírico: ele anotava sonhos, e fazia contos a partir deles. Você adota as "fórmulas" paródia e número mimetizando o sonho, ou também, além disso, sabe como usar teus sonhos noturnos individuais? Não quero entrar aqui na metafísica de "o quanto nosso sonho coletivo de vigília também é sonho, até que despertemos" [sou junguiano e budista...]; limitemos-nos "aos sonhos que se têm quando se dorme"... Você os utiliza como matéria-prima de seu trabalho poético-narrativo? [Também pouco me interessa a distinção entre prosa e poesia aqui; há muito de poesia-das-imagens em Cortázar, e uma cadência de saxofonista em seus textos, que os tornam "poéticos" e, por vezes, "melopéias-bem-narradas"...].


AF: Você me leu muito bem. Sim, uso-me de certos sonhos para construir prosa, mas não sou de anotar como Cortázar, pode soar estranho, mas investigo muito meus sonhos, e às vezes eu escolho o que vou sonhar, na verdade, diria, que em sonho medito o que vou escrever. Houve muitas vezes de me demorar num sonho investigando um certo pensamento para a construção de um conto. Sobre esta mesclagem de paródico com onírico prefiro referir aos meus textos como uma abordagem lingüística sob um olhar irônico. Por exemplo, voltando a idéia de um conto com personagens que se chamam abraço, não me imagino nunca escrevendo de forma séria uma idéia como esta, ficaria sem graça, não seria divertido escrever, pois gosto que o conto me divirta, antes de divertir o leitor, creio que aí está a produção poética do conto, que ele em si, seja uma metalinguagem filosófica e irônica,e claro divertida; a partir daí toda a poesia contida neste nome ‘abraço’ flui leve e independente do escritor. Já não sou eu quem escreve, mas o próprio sentido do nome ‘abraço’, pois é este sentido que domina o conto, e é nesta palavra ‘abraço’ que está toda a poesia do conto, a escolha estética da ironia é apenas uma forma de facilitar esta linguagem, tanto para chegar a ela quanto para transmiti-la.




MN: Eu queria que você falasse de duas forças possíveis na palavra [dentre outras]: o diálogo e o monólogo [mesmo quando o monólogo inclui, em si, diálogos e coros internalizados]. O poeta-em-você gosta de usar os dois? Sabe usar os dois? Conhece bons escritores que usam só uma dessas modalidades de discurso? Trazer pra subjetividade de uma narrativa em primeira pessoa dezenas de referências do mundo externo [e personagens-pessoas internalizadas] faz deste monólogo um quase-diálogo, ou este é um "recurso fake"?


AF: Todo texto é um monólogo quando o escritor sobre sua escrivaninha, sozinho, está ali escrevendo para si mesmo. Assim como todo texto em seu estado de monólogo é um diálogo do escritor com a palavra e da palavra com o vazio. Mas um texto só dialoga com o seu leitor, seja quem ele for. Neste momento em que respondo as suas perguntas, estou em minha escrivaninha, sozinho, pensando com certa cautela o que responder, pois suas questões me põem a pensar muito profundamente meu próprio trabalho de escritor. Neste momento em que diálogo com sua questão estou também num estado de monólogo.


Agora sobre minha preferência estética é o monólogo, pois nunca achei o homem um ser comunicável, e em vista disso, imagino o monólogo o melhor diálogo com meu tempo. Além do que você eu vivemos numa Babel, o que você ou eu disser dependerá sempre de quem vai interpretar e escutar (haja vista que poucos sabem ouvir), então se pode afirmar que a palavra num diálogo se aproxima mais de um encontro de dois ou mais monólogos.


Poucos são os escritores que li e que dominam muito bem o diálogo, e há escritores que são excelentes no monólogo (na narrativa) e se deixam levar pela tentativa frustrante do diálogo. Os escritores que leio muito dominam com maestria o monólogo, Dino Buzzati (aliás, domina com profundidade o diálogo), Franz Kafka, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares e Horácio Quiroga.




MN: O que é um poeta genuíno?


AF: Alguém que seja capaz de renunciar-se para amar um outro e a vida na mesma intensidade que é capaz de renunciar-se para se sujeitar ao amor às palavras.
Alguém capaz de inventar a si mesmo na medida em que é capaz de reinventar as palavras.
Alguém que seja capaz de dizer, sentindo até o último grau da respiração, tudo o que busca dizer sem ao menos deixar que um fôlego escape.
Alguém que foi arrebatado pela visão de certa paisagem do mundo e ainda não acordou.
... Alguém sincero.





MN: O que é um escritor genuíno?



AF: Aquele que tem a palavra como condutor de sua rebeldia e odeia modismos.
Aquele que escreve pensamentos (argumentos).
Aquele que escreve com propósito.
Aquele que acha que Deus não é o único a criar Mundos.
... Ou o que apenas escreve e escreve viciadamente.

Espero não ter criado os dez mandamentos do escritor, seria algo muito semelhante a Walter Benjamin.




MN: O escritor precisa ter o que dizer, ou basta saber dizer o já-sabido como "um jeitinho específico de pisar o chão-da-palavra"? Há que se ter voz e idéia pessoais, ou basta ter "sotaque" e alguns [charmosos] "cacoetes"?


AF: Como escreveu Walter Benjamin “Um bom escritor não diz mais do que pensa”, e sou da mesma opinião. Um escritor tem que ter sua voz, não sei dizer se a voz tem que ser descoberta, acho que ela tem que ser aprimorada, porque é óbvio que cada escritor tem a sua. E outro, para mim um excelente escritor é um inventor, e se ele é um inventor sabe que é preciso ser rebelde com as palavras. Não sou fã de escritor modista, adoro os que vão na contramão da linha férrea da literatura, ou seja, me apaixono pelo os escritores de invenção. Conheço poucos escritores de invenção os quais considero estarem buscando uma via alternativa à recém literatura portuguesa, por exemplo, cito Luis Serguilha, Camila Vardarac, Marcelo Ariel e Wilmar Silva na poesia; Mariel Reis e Whisner Fraga na prosa; não sou um bom crítico e, embora rígido com minhas escolhas, sei que há mais escritores e espero conhecê-los para não ser tão parcial em minha visão.




MN: Obrigado, Anderson. 



Link da entrevista:

http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/07/marcelo-conversa-com-anderson-fonseca.html