19.1.10

A Lower East Side Poem - Miguel Piñero


Revista Confraria nº 25,
edição impressa nº1


Tradução de Ricardo Marques & Anderson Fonseca




Só uma vez, antes de morrer,
quero subir a estrutura do céu
para sonhar que tiro meus pulmões até chorar.
E então espalhar minhas cinzas
pelo "Lower East Side".

Deixe-me cantar minha canção esta noite.
Deixe-me sentir fora de alcance.
E que todos os meus olhos estejam secos
quando espalharem minhas cinzas
pelo "Lower East Side".

Da Houston para a Rua 14,
Da Segunda Avenida para a poderosa "D".
Aqui os charlatões e os otários se encontram,
Os bichas e estranhos. Todos ficarão "doidões"
com as cinzas espalhadas
pelo "Lower East Side".

Não há outro lugar para eu estar.
Não há outro lugar que eu possa ver.
Não há outro bairro por perto que
te anime ou te deprima.
Sem comida. Tiras de merda aparecem
em carros sofisticados, e bares de cafetões, e salões com jukebox,
e colheres ensebadas fazem meus animos voarem
com minhas cinzas espalhadas
pelo "Lower East Side".

Um ladrão, um viciado tenho sido.
Cometi todos os pecados.
Judeus e pagãos... Vagabundos e homens de estilo.
Garoto foge, a polícia atira nele selvagemente,
enquanto a mãe chora.
Traficantes vendendo "carrinhos" de drogas,
e traficantes de cocaína fumando maconha.
As ruas estão quentes e lotadas daqueles que sangram até a morte.
É verdade!
É verdade!
É verdade!
Mas não é mentira nenhuma,
quando peço que minhas cinzas sejam espalhadas
pelo "Lower East Side".

Aqui estou!
Olhe para mim!
Estou orgulhoso como você pode ver.
Feliz por ser de "Lower East Side".
Um lutador de rua, um problema desta terra.
Sou o Filósofo da Mente Criminosa, um morador da prisão do tempo,
um câncer do guetocídio do Rockefeller.
Esta tumba de concreto é meu lar.
Pra você pertencer tem de ser forte.
Você não pode ser tímido para pedir
que alguém espalhe suas cinzas
pelo "Lower East Side".

Não quero ser enterrado em Porto Rico.
Não quero descansar num cemitério de Long Island.
Quero estar perto do tiroteio repentino,
das apostas, e das brigas.
Morrendo artificialmente
e chorando uma nova vida.
Por favor, quando eu morrer
não me leve para muito longe,
mantenha-me por perto,
pegue minhas cinzas e espalhe-as
pelo "Lower East Side".