19.1.10

Filosofia da Renúncia






Nils Runeberg defendeu a blasfêmia escatológica de que Judas renunciou ao Paraíso de Dante para aceitar o Inferno de Milton. Shakespeare abnegou-se de Shakespeare para “encarnar” Hamlet; crê-se que Hamlet o perturbou por toda a vida tornando-se seu abismo. Paulo, o evangelista, em Filipensses 2:14 escreveu: “Porque sendo em forma de Deus, não desejou permanecer igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo (kenosis) assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante ao homem e na forma de homem padeceu a humilhação da cruz”. Paulo importa – ou profetiza – o sentido de tzimtzum do zohar, - o esvaziamento de Deus para gerar o tehiru, o pleroma divino, a substância primordial onde foi gerado o mundo, “No principio a terra era sem forma e vazia, e o vazio era o mar” - para a encarnação de Cristo. Isac Lúria acreditava que a encarnação de Cristo era uma mistificação cristã do tzimtzum. O Pe. Danielou defendia a encarnação como um ato de renúncia da hipóstase para a queda luciferiana. O Satã de Ezequiel e de Isaías renunciou ao estado angelical e a comunhão com a divindade, porque contemplou no rosto de Deus a dualidade do Bem e do Mal. Talvez, St. Agostinho tenha percebido o mesmo, entretanto, renunciou a sabedoria luciferiana para permanecer imerso na fé de Jó. Blake entendeu a visão do Lúcifer de Ezequiel e confessou que o Bem é a razão e o Mal a energia de Eros, que Freud compararia ao impulso ancestral do corpo sobre o espírito, dualismo que agonizava a existência de Deus. Nietzsche disse: “quando você olha o abismo, o abismo olha você”. O abismo era Richard Wagner. Procurou renunciar ao abismo, mas o abismo permaneceu onipresente como um deus. A morte de Deus / A morte de Wagner. Loki abnegou a filiação com Odin, sua escolha afetou Thor mais que o poder do Pai. Renunciar ao Pai é o inicio da tragédia,... da tragédia cosmogônica da Grã-Bretanha (símbolo do mundo). A Renúncia divide-se em três atos: o Demiurgo, o Cristo, o Luciferiano. Cada qual determina o homem e a história. Renunciar é recolher-se e quedar, é a escolha de Fausto e a tormenta de Macbeth.

Escolho desfigurar-me do meu Pai.
Escolho o desespero e a matéria.
Escolho o espírito que morre na matéria.
Escolho a expiação do meu pecado – ser filho.
Agora sou maldito pelos séculos que vierem.
Maldito Redentor. Poeta do demônio.
Escolho o renascimento, o renascimento à ascensão.
Este é o destino: viver a tragédia como Orfeu.
Renuncio o apocalipse primevo.
Retorno ao útero que me pariu e grito feito Jonas do Inferno.
Tenho a Jó e Werther diante de mim.
Haverá na fissura da carne uma gota de alívio?
Deus é Beemot e Leviatã.
Eu sou a ruína dos tempos, porque neguei o esperma e o útero que me concebeu.
O nada é em mim tão vivo quanto a chama de Hefesto.
Disse: Moloch! Moloch! Moloch! Dançarei no corpo de Moloch, cantarei os salmos de Moloch.
Nasci Tirésias.
Porque não vejo o meu rosto, minh’alma contempla os séculos.
Eu Sou (Êxodo 3:14).

do livro Alucinação (2009)