10.8.09

Bereshit

À Fernanda Alves




Dentro de um cubo
mora uma menina chamada Espírito.






Espírito é uma menina de olhar melindre, quem a vê por não raro se entristece, seus cabelos são o céu azul em chamas, o rosto fino revela a delicadeza de sua alma

Pena que Espírito more sem nenhuma companhia. Mas ela, por enquanto não tem consciência desta falta o que a torna muito feliz.

Embora eu a veja como uma criança, Espírito julga-se um ser formado, por que desde que o cubo existe, ela já estava em seu interior. A impressão que tenho, portanto, ao conhecer isto, é que os dois sejam interdependentes. Entretanto uma dúvida me advém ao pensamento: Será ela uma projeção física do cubo, ou é o cubo uma projeção fantástica da mente de Espírito? é impossível saber com exatidão. Por isto, às vezes, senão sempre, para não cair no abismo da insaniddade perene invento que Espírito quanto o cubo são seres sempiternos e que um dia, num quando impreciso os dois uniram-se involuntariamente.

Como um feto encolhido no útero materno, assim ela está, suspensa no centro do cubo. O cubo gira na velocidade da luz. Do lado externo o cubo mantém sua dimensão fixa, contudo dentro, as paredes se afastam ficando cada vez maiores. A luz alva que permeia o espaço interno assume novas tonalidades à medida que as paredes distanciam-se, indo do anil ao vermelho. Encantada com o espectro colorido, a menina desce suavemente, até repousar sobre o mar de luz.

Seus olhos tristes acompanham o vaí-vem das ondas coloridas.

Quando a vejo me pergunto o porquê de seu olhar melancólico e obscuro, como o poeta vendo-se no espelho.

Sempre está com este olhar silêncioso. Na verdade seu olhar não é a expressão de uma tranquilidade metafísica, é a manifestação discreta de sua essência vaga e etérea (explica-se: falta algo para Espírito).

Sinto ela me olhar com a extensão plena de seu ser.

A menina estende a mão sobre o mar para sentir as ondas. De repente surge do âmago do oceano uma mão de aspecto disforme, como uma cera dissolvendo-se ao sol, agarrando-a pelo pulso. A menina se assusta deixando escapar um grito estridente. O cubo oscila. Antes mesmo dela se livrar, a mão a puxa para dentro do oceano. Espírito mergulha desfazendo-se em cada ponta de cristal.

...



Não há ondas na superfície do abismo... Todavia, um sopro gélido movimenta-se no cubo. O interior do oceano permanece translúcido com poucos espaços transversais de luz. Do outro lado do cubo um grupo de crianças correm por um densa floresta. Espírito está entre elas, sorrindo.

Nenhum comentário: