1.3.09

Quatro Considerações sobre a Poesia Contemporânea Brasileira

publicado originalmente no Portal Cronópios
A Poesia Penitente

Ah! Como estou farto de todo o deficiente que se empenha em ser um acontecimento!
Ah! Como estou farto dos poetas! Estou enfastiado dos poetas, dos antigos e dos novos: para mim todos são superficiais; todos são mares esgotados. Não pensaram profundamente; por isso mesmo não sentiram a fundo. Um tanto de voluptuosidade e um tanto de tédio, eis ao que se reduziram as suas meditações. O seu espírito próprio é o rei dos pavões e um oceano de vaidade. O espírito do poeta quer espectadores; mesmo que seja búfalos! Eu, porém, enfastiei-me desse espírito e vejo chegar um tempo em que ele próprio se enfastiará de si mesmo. Já vi poetas transformarem-se e procederem contra si próprios. Tenho visto penitentes do espírito: saíram dos poetas. Assim falou Zaratustra
. –
Friedrich Niezstche


Poetas serão românticos? Ah! Poetas românticos, melancólicos, suicidas (ainda haverá poetas suicidas?), doces, com vermes crescendo na sua pele – fruto podre (do paraíso? de Milton ou Gênesis?), quanto de narciso convive com seu édipo, mesquinhez e compaixão – autopiedade que se torna poesia ou será flagelo, um modo de punição que o poeta inflige a si? Então há um pouco de religião na poesia, digo: culpa + pecado (remorso) x expiação pelas palavras, Que medíocre!
Eis a poesia penitente: poetas doentes buscando enfermeiros, - A dita cura pela fala! -, buscando platéia. Deficientes empenhando-se em serem acontecimentos, acontecimentos que se tornam acidentes. Mares esgotados?! Na verdade, piscinas de quintal é o que se converteu seus poemas, como Zaratustra disse: todos turvam suas águas para parecerem profundos. Eu também olhei estes mares, muito enganei-me ao crer que havia imensidão, intensidade e vida, mas os mares jazem mortos. Ei, Zaratustra, também estou farto dos poetas penitentes, espero que se afoguem com narciso! Mal saem seus poemas no papel e já estarão mortos no tempo. Lamente comigo Zaratustra, a poesia está patológica, e seu pathos chama-se ego.



Nota:

Existe uma convenção pouco tácita entre o autor e o leitor, pela qual o primeiro se intitula doente, e aceita o segundo como enfermeiro. É o poeta que consola a humanidade! Os papéis estão arbitrariamente invertidos. – Lautréamont.



A Poesia Sofista


Os gemidos poéticos deste século não passam de sofismas.- Lautréamont


Belos poemas tenho lido, belos como pães sem fermento, ocos, porém cheio de esperança, insignificantes, crendo, no entanto, dizerem algo, afirmam que a semântica os salva. Como é omnibondosa a semântica, tudo que estiver vazio ela vem e enche de sentido, foi assim no princípio TUDO ERA SEM FORMA E VAZIO chegou a semântica no corpo de uma ave e disse: Haja Luz! E veio a luz do pensamento dar forma ao que de pensamento era plenamente vazio. Um teólogo deu-lhe outro nome: VERBO.

Belos poemas tenho lido de bons escritores, mas somente belos poemas de bons escritores, nada contém, i. e., bons poemas de nada, mas fáceis de ler. Poucos mestres, raros inventores.


É o excesso de dizer que acaba por nada dizer? INTERNETE + IMPRENSA = VELOCIDADE DE INFORMAÇÃO = milhares de “vozes poéticas” derramando palavras – a internete é o esgoto do poeta, ou mictório a la Duchamp?– no anseio de que haja olhos que os assistam a cada segundo (LEIA-ME OU TE DEVORO!), porém nenhuma qualidade no total das equações.


Como escreveu Niezstche:

Ninguém sabe agora o que é um bom livro, é necessário mostrá-lo: não percebem a composição. A imprensa arruína sempre mais o sentimento.


Nota:

Somos tão pouco presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos pela Terra, mesmo pelas gentes que virão quando não estivermos aqui. Somos tão pouco vaidosos que a estima de cinco pessoas, digamos seis, nos diverte, nos honra. Pouca coisa nos consola. Muita coisa nos aflige. A modéstia é tão natural no coração do homem que um operário tem o cuidado de não se vangloriar, quer ter seus admiradores. Os filósofos o querem. E principalmente os poetas! – Lautréamont.



A Poesia Minou Drouet

Na época de Pascal, considerava-se a infância como tempo perdido; o problema era sair dela o mais depressa possível. Desde os tempos românticos (isto é, desde o triunfo burguês) deseja-se permanecer criança o mais longamente possível. Todo o ato adulto imputável à infância (mesmo retardada) participa de sua intemporalidade, é considerado prestigioso porque adiantado. – Roland Barthes.

Isto foi o que aconteceu a poesia: a essência poética desceu até a essência infantil. É o caso Minou Drouet: poetas que permanecem imaturos produzindo poemas a leitores (outros poetas) também imaturos, sendo os primeiros chamados gênios (TODOS QUEREM SER RIMBAUD!), visto que seus poemas são metáforas bem elaboradas, cujo o alicerce é um dicionário de palavras mal-compreendidas, no fundo da carne não tendo osso nem sangue. Poetas que confundem espontaneidade com inspiração, i.e., poesia irracional com poesia surreal e etecéteras; será que até poetas jogam dados? E vejam, estes poetas reúnem-se em grupos e se nomeiam nas mais variadas classificações, (ou será revistas, grupos de discussão, rodas de chopp? Desejam viver ou reviver tempos mortos?). E, no entanto, todo o nome dado a uma ideologia compartilhada é a nomeação de um sofisma – aqui pode-se dizer ser possível criar algo do nada. Crianças brincando de cirandinha vamos todos cirandar.

A poesia Minou Drouet é um caso epidêmico, alastra-se como vírus e adoece a muitos, no dizer de Barthes: Minou Drouet assumi todo o mito poético e todo o mito infantil de nossa época. A causa da doença? Inteligência elevada e emoção subdesenvolvida. Serve para estes poetas a frase de Cocteau: Todas as crianças de nove anos são gênios salvo Minou Drouet.


Nota:

Como na página de economia doméstica dos nossos jornais femininos, o importante é lidar com objetos literários cuja forma, função e preço nos sejam perfeitamente conhecidos antes de os comprarmos, e que neles nada desoriente: pois não há nenhum perigo em decretar estranha a poesia de Minou Drouet, se lhe reconhece, desde o início, a qualidade de poesia. A Literatura, no entanto, só começa perante o indizível, face á percepção de um algures estranho à própria linguagem que o procura. É esta dúvida criadora, esta morte fecunda, que a nossa sociedade condena na sua boa Literatura, e que ela exorciza na má. Proclamar alto e bom som que o Romance deve ser romance, a Poesia poesia, e o Teatro teatro, é instaurar uma tautologia estéril, semelhante à das leis denominativas que regem, no Código Civil, a propriedade dos Bens: tudo concorre para a grande obra burguesa que consiste em reduzir enfim o ser a um ter, o objeto a uma coisa. – Roland Barthes.



A Poesia Pessoal

A poesia pessoal terminou seu tempo de malabarismos relativos e contorções contingentes. Retomemos o fio indestrutível da poesia impessoal bruscamente interrompido desde o nascimento do filósofo fracassado de Ferney, desde o aborto do grande Voltaire. –
Lautréamont


poeta egoísta, faz do ego seu poema, quantas palavras vazias, aprende com os Poetas que o ego é um sofisma, aprenda a ouvir o som do mundo, aprenda a ser o outro, esqueça quantos eus há na sua alma, entenda o propósito do Verbo: deixar-de-ser para o outro ser. Ah! Já não basta o Romantismo? Eis o que anúncio: A poesia impessoal, sem nome, sem rosto, apenas a palavra dentro da palavra incapaz de falar palavra, centro e circunferência no tempo! Aqui está o sentimento que Eliot descreveu como “o que realiza o gênio da linguagem” *; pois o gênio não está no que sabe usar a linguagem, mas naquele que se torna o mais alto grau da linguagem.

* FRYE, Northrop, T.S. Eliot, ed. Imago, 1998, Rio de Janeiro, RJ, págs. 41.



E...

O bom poeta, sábio e feliz, considerará o que escrevi, o mau poeta, tolo e infeliz, me ignorará, entretanto, inteligente é aquele que duvidar do que eu disse.

Sábio é Percy Shelley ao dizer que

A poesia é o registro dos melhores e dos mais felizes momentos das melhores e mais felizes mentes.

Mas como escreveu Lautréamont:

Os poetas contemporâneos abusaram de sua inteligência.


Por fim, vale lembrar o que disse Nietzsche:

De todo o escrito só me grada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espirito.

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