11.1.09

A Palavra da Poesia


"Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogaisde um azul tão apaziguado? /E das consoantes, que lhes dirás,ardendo entre o fulgor das laranjas e o sol dos cavalos?/Que lhes dirás, quando te perguntarem pelas minúsculas sementes que te confiaram?"
Eugênio de Andrade
Ivan Pessoa*

.......Com o passar dos anos, a filosofia e a ciência parecem envaidecer aqueles espíritos, os mais arrogantes, dando a impressão que muitos dos problemas desta vida, são passíveis de resoluções, basta um olhar objetivo sobre o drama. Não que à filosofia, bem como à ciência, se assemelhe à arte da taumaturgia, não lhes cabe o poder da cura, tão cara aos místicos e curandeiros, mas a parcimônia das análises, os experimentos, parece dotar a ambos, filósofos e cientistas, da fortuna dos que falam o suficiente, apontando a verdade, o que lhes dá a autoridade dos especialistas. A palavra de filósofos e cientistas, para os não iniciados, é como que outro idioma, em que o excesso de jargões técnicos, expressões habituais, decodifica os respectivos problemas da realidade. Filósofos e cientistas falam muito, são do reino humano, aqueles que mais fazem uso da palavra. Feliz daquele que com pouca palavra, diz muito, é a tal arte da precisão, do laconismo, bem mais presente no universo mágico da arte e do misticismo, portanto, no âmbito do sagrado, que todo o arranjo disjuntivo do pensamento, que para se fazer entender, precisa de extensos parágrafos, hipóteses, teorias, fórmulas, precedidas por tantas outras equações.

.....Onde o pensamento não consegue mais identificar, nem mesmo imprimir o reinado de sua lógica, é que se dá o acontecimento da arte e da poesia, onde a palavra, sacrificada pela cotidianidade dos chavões científicos e filosóficos, é re-intencionada, re-adquire seu sentido original, com efeito, só as experiências poéticas dizem da realidade, a realidade propriamente.

.....Para os mais românticos como eu e Octavio Paz, graças à poesia, a linguagem recuperaria seu estado original. Compreendo que os signos, as palavras, têm anterioridade e existência própria, não estando presas aos homens numa relação de subserviência, mas os homens, presos às palavras mensurando objetivamente a Terra, correm o risco de tão somente transmiti-las, comunicá-las, portanto, enfraquecendo a potencialidade de cada uma. Contra este risco, o poeta é solicitado. Guardião do segredo sabe que lá onde o homem se acotovela para calcular os fenômenos da Terra, onde o pensamento se esforça mais soberano, lá mesmo surgem as dúvidas, as incertezas, novamente em silêncio é que vem o poeta, este protetor do inefável, daquilo que não pode ser dito, junto deste, nos vem à porta, Fernando Pessoa, em délfica inscrição: "Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. Um novo deus é só uma palavra. Não procures nem creias: Tudo é oculto."


....O que diferencia o poeta, do cientista e do filósofo, é que, diferentemente dos dois últimos, que são partícipes do momento em que o pensamento se distancia do mundo, porque conceitua seus respectivos fenômenos, o poeta tem o poder mágico de se tornar aquilo de que fala, de modo que, seus olhos não vêem a estranheza do objeto, mas vê na coisa, um ponto de encontro consigo mesmo. Do maldito francês Tristan Corbiére, vem a comprovação: " – Um sapo! – Por que esse pavor, perto do teu fiel soldado? Ei-lo é um poeta tosquiado, Um rouxinol da lama... – Horror!/ - Horror por que? Olha-o; escondeu/ em sua toca o olhar ardente/ e foi-se: frio, indiferente. Boa noite: - Esse sapo sou eu." Se Corbiére é o sapo, todo poeta sustém no olhar, o excesso dos paradoxos, a condição do ser humano que vive à flor da pele os ditames desse jogo entre vida e morte, luz e sombra, tempo e eternidade.

- Deixai de lado os sapos de Corbiére, prefira os grilos metafísicos de William Blake, diz-me em silêncio minha consciência: "Num grão de areia ver um mundo/ Na flor silvestre a celeste amplidão/ Segura o infinito em sua mão/ E a eternidade num segundo.".

....Assemelhando-se ao criador, em todo e em nenhum lugar, o poeta cria com suas mãos, labora seu engenho, anulando a distância com o objeto pretendido, saltando o intervalo entre o corpo e a natureza, o real e o imaginário. "Converte-te no bambu que desejas pintar", eis o conselho de um mestre-zen a um jovem artista.

.....Um dia o poeta romântico inglês Coleridge, dormitou logo após uma dose de ópio, antecedida por uma leitura ocasional sobre o imperador mongol Kubla Khan e seu palácio Xanadu. Durante o sonho, o poeta visualizou obnubilado, o palácio, o que lhe custou logo após o cochilo, um dos poemas mais importantes desse período: "Em Xanadu mandou Kubla Khan construir, uma importante mansão para o prazer, Ali onde o Alfa corria, o rio sagrado, Por cavernas de tamanho desmedido." Em seu silêncio crepuscular, o que faz com que os poetas digam muito com poucas palavras, Jorge Luis Borges em sua obra: Outras Inquisições, imaginava que a alma de Kubla Khan teria se unido à alma de Coleridge, ocasionando o poema, o devaneio.

....Nesta vida, em que nem sequer pedimos para nascer, enquanto outros, nem nascem para viver, cada poeta se esforça para dizer o que deve ser dito, logrando o êxito da precisão. Neste lusco-fusco em que mal se vê as coisas ao derredor, só nos resta a poesia, entretanto, longe de buscar as mãos assoberbadas dos que curam, prefiro o silêncio dos que dizem muito, ou quase nada. Com Huidobro encerro aquilo que minhas palavras não puderam expressar, o receio de falar muito e não dizer nada, tão comum na arte de pretensos filósofos e na fuga de falsos cientistas : "Por que cantais a rosa, ó Poetas? Fazei-a florescer no poema; /Somente para nós/Vivem todas as coisas debaixo do Sol. /O poeta é um pequeno Deus.".



Ivan Pessoa é graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão com romance no prelo:
O horizonte imaginário. (www.osonetista.blogspot.com)

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