3.1.09

Farias Brito Contra o Tempo

Paulo Avelino



O Tempo é crime (o crime é o salto para o nada). E luto contra ele. E para lutar contra ele, eu o procuro.

Meu nome é Raimundo de Farias Brito (ocupo lugar no espaço). Nasci num ponto do Tempo batizado de 24 de julho de 1862, num ponto do espaço denominado São Benedito, província do Ceará, Império do Brazil. Morrerei noutro (o Tempo existe?).

O Tempo é crime(noso). Matou minha esposa, matou meu filho mais velho no primeiro dia em que disse papai, enterrou mil e quatro pessoas de malária num dia e numa cidade em que eu estava em 1878 (eu não era uma).

Devorador de tudo em minha volta, procuro por ele. Sou sertanejo no Nordeste, fujo de secas, minha mãe lava roupas, meu pai vende batatas. Formo-me em Direito, falta de opção em (Tempo) 1884. Sou promotor no Fim-do-Mundo, secretário em Fortaleza, professor em Belém, professor no Rio, no Pedro II. (Não tenho assessor de relações públicas, a FLIP não me convida, não escrevo livros sobre Cabul – este espaço existe?). O Tempo avança (será mesmo?) Chegamos a 1914. Já escrevi volumes sobre A Finalidade do Mundo, A Verdade como Regra das Ações, A Base Física do Espírito. Chegou a vez do Tempo. Eu o procuro. Ele pode existir ou não. Pergunto aos antigos (é a segunda parte de meu livro).

Kant existe (pensa, logo existe). Schopenhauer existe. E Fichte. Schelling. E Berkeley e Hume, e Condillac e Haeckel, Tobias Barreto e Bergson. Tomo este último pela mão na minha busca.

Emanuel Kant se perguntou o que podemos conhecer. E (bobagem de alemão) mudou o nome de uma palavra. Para todos, Estética é o estudo do belo. Para os alemães, é o estudo das sensações (sthésis). Temos duas, básicas: o Espaço e o Tempo. Só percebemos as coisas assim. Assim, Tempo e Espaço são absolutamente reais, como forma de percepção das coisas dentro de cada um. Fora, Kant não diz nada. O Tempo – meu inimigo – existe.

Erro, diz Bergson. (Grande, grande da virada dos mil e novecentos, um Derrida que se fazia entender). O Espaço é homogêneo (o espaço independe das coisas – estas não têm extensão). O Tempo, não. Olha para teu relógio, o ponteiro quase no doze, o menor no quinze, o de segundos Deus-sabe-onde. E isso é tudo. Fecha teus olhos. Abre. Os ponteiros mudaram. Procura a posição anterior (não existe). Só existe a atual. E depois outra atual. E outra. O que junta todas essas posições? Só a tua mente. (O Tempo é abstração). O Tempo – meu amigo – inexiste.

Encontrei o Tempo. E não. (Filósofo caboclo, falo português. E grego, latim, inglês, francês alemão e italiano. E pitada de sânscrito). Dizer que algo não existe é exorcizá-lo, não livrar-se dele.

Continuo a escrever. Até hoje. Até que os brasileiros se conheçam e no processo me conheçam, um brasileiro que pensou e pensa. Lembre-se, no meu livro O Mundo Interior de 1914 descobri que o Tempo, este Tudo, inexiste. E não.




Bibliografia:

FARIAS BRITO, Raimundo de. O Mundo Interior. Brasília: Senado Federal, 2006. 448p. 1ª ed., 1914. (Edições do Senado Federal, vol. 52)
_________________. A Verdade como Regra das Ações. Brasília: Senado Federal, 2006. 1ª ed., 1905. 156p. (Edições do Senado Federal, vol. 51)
_________________. A Base Física do Espírito. Brasília: Senado Federal, 2006. 1ª ed., 1912. 334p. (Edições do Senado Federal, vol. 53)







Paulo Avelino não se chama Mukhtar Al-Hamid, não sabe onde diabos fica Kandahar e por isso não se acha em livraria nenhuma. Nasceu dos galhos e ramas derrubadas de ilustre árvore genealógica – pelo menos é que dizia sua avó. E o pequeno Paulo concordava, para não levar as rasteiras, rabos-de-arraia, pesco-tapas e tapas-telefone que a velhinha aplicava a quem discordasse (a velhinha era fogo). Acha que brasileiros não são inferiores a ninguém – o que já indica que muitos acham. Já leu as letrinhas micro-miúdas de duas colunas das notas de rodapé do Declínio e Queda do Império Romano de Thomas Edward Gibbon – responsável por quatro graus de miopia no seu olho direito. Tem a grande mancha e arrependimento indelével na vida de ter ido à Disney World – e vive berrando como atenuante que foi forçado, levado pelos outros e com financiamento alheio. Uma Comissão da ONU vai examinar o caso.



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