11.12.08

A cerva de Ricardo Reis

À meus amigos




Meu Psiquiatra há muito proibiu-me de beber, ele disse-me: Anderson se beber, ficarás alucinado! O doutor estava certo no seu juizo. Embora procure seguir o conselho, procuro também contrariar a receita.
Na sexta-fera, 5 de Dezembro, à convite, fui ao lançamento de um livro na Rua do Mercado, Centro, no restaurante 1881, lá encontrei os amigos Lucas Magdiel (na foto o rapaz com rosto de aparência indiana) e Paulo Avelino (de boné). Sentamos próximos a uma mesa - veja na foto, o quanto a mesa está distante e nós em torno dela -, durante 120 mn. conversamos assuntos não-lineares, mas onde se pode afirmar que uma conversa segue um padrão de discurso perfeito? Enquanto discutiamos, eu bebia café, apesar desta bebida causar-me certas tremedeiras espamódicas, é ela meu elixir, claro, acompanhada de um cigarro. Aguardava a chegada do amigo Ricardo Marques (na foto de óculos), após sua chegada, a bebida mudou de forma, textura e cor, veio uma Antártica, o rumo da conversa seguia seus conteúdos não-lineares que a tornavam agradável, mas a medida que eu bebia a cerveja como se fosse água, percebi que eu ficava tonto e meu humor mudava, falava mais e mais rápido, embora procurasse me conter, centrando-me na conversa, eu estava disperso, tonto, procurando manter-me, e as coisas não iam bem... desci para ir ao toalhete, descobri que Paulo também se dirigia para lá, mas meus pés tropeçavam , meu corpo pesava, e minha cabeça rodava, minha voz grogue declarava meu estado a todos com quem encontrava, fui ao toalhete na companhia do amigo Paulo, disse a ele que minhas mãos sujas não seriam de boa ajuda. No toalhete, enquanto abria o zíper da calça para mijar, vi diante dos meus olhos um poema de Ricardo Reis: "Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo /E ao beber nem recorda/ Que já bebeu na vida/ Pra quem tudo é novo"... Entusiasmado com o poema, perguntei a Paulo se me permitia ler para ele, o amigo consentiu de bom grado, e eu li enquanto mijava no mictório, terminado a performace poética ao som de rajadas de ácido úrico, voltamos a nossa mesa. Concordo com Paulo, o poema estava plenamente adequado a minha condição. Devo dizer algo que soará novamente estranho, há quem diga ser minha obsessão, eu creio ser um sinal místico de uma vida em graça, sabe o poema de Ricardo Reis ele é o 13º poema de Odes - Livro Primeiro. Minutos mais tarde, após Paulo e Lucas despedirem-se e cada um seguir seu retorno para casa, tive que aguardar Ricardo para pagarmos a conta, nada barata, nos despedimos dos amigos que estavam no evento e partirmos rumo a Niterói, meu amigo teve que ficar próximo de mim, pois meus pés acompanhavam a gravidade e meu estômago anunciava o retorno imediato de alimentos pelo esôfago. Nas barcas relembravamos os amigos... Em Niterói, Ricardo e eu fomos ao Cantareira, bebemos mais cerveja no bar do argentino, Ricardo contou-me que o argentino é ex espião da CIA, senti-me cercado de espiões, o argentino investigava-me com os olhos, mas eu desviava os olhos para as mulheres a nossa esquerda, uma delas, de cabelos pretos escorridos e brilhosos fitou-me longamente, consequência... Pagamos a conta, esta era barata, e nos dirigimos ao DCE da Uff, contaram-nos dias antes que ali ocorria um evento de poesia, verificamos, minha opinião a respeito do evento: ?!?! Eu permanecia bêbado, ou menos, como vou lembrar?, não duramos 10 mn. no local, saimos às pressas, houve entre mim e Ricardo uma decisão unânime: voltar para casa era necessário, mas antes precisavamos ir a rua São João visitar umas putas. Muito antes de chegarmos a São João, Ricardo diz: Anderson preciso dar uma mijada. O amigo, que se diz ser um lobo à noite, mijou num poste onde há anos disse mijar como forma de marcar seu território, minha vó sempre me aconselhou a não contradizer, vale lembrar que era lua cheia. Próximo a rua São João, vemos dois homens convidando uma pt mulata a um programa. Na S. João, belas pts exibiam seus quadris ao lado de travestis, um mendigo cantava músicas do Cartola, eu e Ricardo, nos deliciavamos naquela paisagem, entretanto, vencido pelo cansaço tive que abandonar a S. João para ir pegar um ônibus. Na rodoviária nos despedimos, não peguei ônibus, peguei uma van rançosa cheirando a vômito na companhia de outros bêbados, do resto não me lembro.

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