26.7.08

Victor Paes

Comentário: Victor Paes constrói o poema no espaço, e o espaço é cenário de seu corpo poético, como espaço (a folha em branco) ele insere sua voz dividida em muitas vozes (aqui representadas pelos números 1 e 2 e 3, pequenas representações das divisões de outras vozes no seu livro O óbvio dos Sábios), estas vozes dialogam num cenário "atemporal", não havendo espaço certo em que se situe as vozes travam uma batalha no espaço.








Tempo 2





O elenco sentado no cais espera vir da água o ator que subirá de seu duelo com um monstro marinho. Talvez ele traga para máscara o rosto do monstro em uma vara de marmelo. Talvez traga pedaços de sua couraça para rejuntes do cenário.

Até esse dia o mar do teatro era um espelho do céu do teatro. O mar era tão plano, que não havia banhos nem pesca, pois não se sabia como atravessar sua superfície. Então, algumas companhias construíram cenários e representavam sobre ele.

Até que um dia um ator recebeu, em cena aberta, em um pergaminho entregue com um gesto de kabuki, o desafio de um monstro marinho e as instruções de como descer até ele. Seria uma briga ensaiada, mas foi tão violenta, que a partir daí existiram as ondas e as tempestades.





1
quem sustenta a noite
e seus cordilhames
também sustenta o próprio gesto
(também telhados pertencem mais à noite):



2

o corpo gigante
(a corda sul na mão alta
a corda norte na mão baixa)
vazado da própria noite
quando se abre uma janela para olhá-lo







3

pertencer é assombrar



2
(da capo)


de repente um sentido:
um mágico tira da cartola
um coelho morto







Victor Paes é escritor e editor da revista Confraria do Vento, publicou o livro O óbvio dos Sábios em 2007, publica no blog http://victorpaes.blogspot.com/

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