26.7.08

Roberto Bozzetti

Comentário: Roberto Bozzetti presenteia-nos, assim como alguns dos outros escritores convidados, com dois poemas inéditos do seu futuro livro "Firma Irreconhecível". Bozzetti elabora uma poesia de caráter irônico, exatamente como confessou-nos uma vez : "uma irônia machadiana" - porém com uma voz pessoal, crítica e sensível. Nos dois poemas abaixo o poeta trata da estética cinematográfica no seu olhar como em outro do ícone drummondiano numa perspectiva sarcástica à mídia deglutante de símbolos.







OU É POR QUILO?
, Sérgio Bianchi










é pra declaração:
chega na época certa
vou num orfanato desses aí e
listo uns nomes:
7, 8...
tudo como dependente
uma porção daqueles beneditinhos
de olhos grandes
pidões

te juro que dá vontade
de pegar uns pra adoção mesmo.
sabe como é...
ajudar em casa,
fazer pequenos serviços na rua
supermercado
pagar conta...
se bem que hoje com internet tá tudo mais fácil

agora com esses papos de ética
responsabilidade social
inclusão... essas coisas
tá um pouquinho mais chato.
faço a inclusão na minha
declaração.
dá problema não
faço há uns 15 anos...

listar uns beneditinhos...







A ESTÁTUA E OS ÓCULOS

Analfabeto não usa óculos
Careca não usa pente
Pra que que o banguela
Vai querer pasta de dente?
(quadra popular)







Os jornais falam sem alarde
que noite dessas, outra vez
defraudaram o velho gauche.
Coloquial, mas afinal
estátua, ainda que sem pose
e pedestal, não se conforma
condenado ao quieto no banco,
itamórfico, pétreo ante
a perpétua prisão do mar
às costas e os aposentados
do Posto Seis jogando damas.
Será que pode agora a mídia
fazê-lo de seu bom velhinho
finalmente Quintana avô
da Bruna? Detido que está
em fôrma, solidário às levas
de pingüins que traz o mar, ele,
velho urso vindo das geraes,
dispõe-se a retratos, no entanto
escassos se desoculado.
Ora, Drummond se emputeceu
e ele mesmo escondeu os aros
e as hastes da armação de bronze.
Será a terceira ou quarta vez
que desaparece a relíquia,
súbito patrimônio histórico.
Da primeira vez manhã cedo
alguém notou e trombeteou,
jornalistas deram alarme
muito embora os pombos à tarde
nem dessem pelo sucedido
sugerido pelo sardônico
ar titânico do poeta.
Mais uma vez a mídia em ohs!
pranteou a deseducação
endêmica e tão brasileira,
e nós, que ao longo desses anos
deveríamos ter fingido
melhor amar essa poesia
cética e farmacêutica.
A estátua não declarou nada



mas de dentro dos versos duros
tão pouco dúcteis quanto doces
a forma impalpável de Carlos
solidária sorriu aos vândalos.
Claro, não disse nada, não
assim diretamente como
o insubordinado mental
incorrigível de Friburgo.
Achou que o roubo contumaz
rotinizaria as retinas
fatigadas dos concidadãos
e lhe parece haver ainda
muito barulho por tão pouco.
O poder público promete
24 horas por dia
monitoração eletrônica
e se a promessa for cumprida
a estátua do gauche fará
ao vivo o tresloucado gesto.


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ROBERTO BOZZETTI lançou em 2008 seu primeiro livro de poemas, A tal chama o tal fogo, pela Oficina Raquel. Os poemas acima integram seu próximo livro, Firma irreconhecível, com lançamento previsto para 2009.



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