25.7.08

Márcio-André

Comentário: Márcio-André nos presenteia com poemas do seu livro semi- inédito "Sintaxe das Casas" , os poemas abaixo correspondem as págs. 9,10,11 e 15 do respectivo livro, embora - e aqui desculpo-me ao autor e aos leitores, não tenha sido possível manter a estrutura original dos textos, procuramos aqui publicar fragmentos deste livro a maneira adequada. O livro centraliza-se na imagética da casa como espaço, como tempo, como cosmos, como ser e sintaxe de um ser, baseado no pensamento de Bachelard - como referência, Márcio nos faz penetrar na essência do significado da palavra "casa" e toda metáfora, a qual nela está inseminada e disseminada convertendo-a num ser orgânico, vivo e mutante na cidade, enfim, a casa em Márcio respira.







As casas são 30% tijolos e 70 % sonhos


............[1] .......casas-frutas
........................casas-mundos


...........[2] .........a
.........................cidade-mitose
.........................cidade aerada [ um ser subterrâneo
.........................aleatório]


era jovem a mulher na cozinha
...........o cabelo com o dobro da idade


..........fruta-falo em seu ventre


.........na ontologia dos detalhes
.........os utensílios tem parte com os delírios


........[3]

........a estrutura óssea da casa
........não suporta vibrações de realejo


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a materialidade das casas está na luz


...........o espaço-tempo
represado no quintal pela manhã

um jardim de cimento fechado em cimento


.........uma estrela mecânica
.........rangendo
.........o fim do mundo
.........na lombada dos portões


a casa é uma pedra dobrada

........casa-côncava
ruas asfaltadas com minério lunar
algum traço de dama azul nas esquinas


matéria escura do branco
...........ali onde a luz inaugura a luz






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um tumor surgiu no omoplata esquerdo
bloco de laje alojado entre vértebras:


uma gestação de lâmpadas moídas
algo de entulho lajota viga
recheado de pena graveto argila

e uma íngua de carne ao avesso do reboco

casa-medula
..........num engano de coluna

........pedra-casa
no rim de um estranho emparedado por dentro





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há ruas onde o futuro não chega
pessoas demais que sonharam uma tarde

quando uma cidade nasce já trás outra em seu ventre


..........invejar a
outra vida que se deixou de viver


uma vida no extremo de outra
sob um sol flaciforme - vida entremoscas

........numa
rua com casas d'água
e pavimentos d'água
e cortinas desenhadas com sol e lua -casacoisa

[os gatos são guardiões das ondas de rádio]

na carta celeste o mapa do metrô
:ofende caminhar no entre



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Márcio-André é poeta, tradutor, editor, performer e ensaísta. Autor dos livros Movimento Perpétuo (2002), Cazas (2006), Intradoxos (2007) e Ensaios radioativos (2008). É editor da revista de arte e literatura Confraria, produzida pela Confraria do Vento, editora que coordena no Rio de Janeiro. Faz peças musicais para teatro e cinema e realiza performances de improvisação oral, poesia sonora e música eletroacústica, fundindo o som do violino ao de outros objetos produtores de som. Em junho de 2007 realizou a Conferência Poético-Radioativa de Pripyat, performance que consistiu em leitura solitária de poemas na cidade fantasma de Chernobyl, na Ucrânia. Também fez leituras em Coimbra, Paris, Buenos Aires, Ucrânia e Londres e tem poemas traduzidos para diversas línguas. Atualmente, trabalha no livro de ensaios "Poética das casas", que recebeu, em 2008, a bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obras em andamento.

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