25.7.08

Morena Cambará






Comentário: Morena Cambará é uma autora que escreve contos que misturam a ancestralidade num modo saudosista com cheiro de terra fresca encantando pela combinação de imagens poéticas, e por vezes desconcertantes, criando um ambiente próprio de memória e vida.




Ciranda da manhã, cantiga de pedra






“Outra vez te revejo,
com o coração longínquo, a alma menos minha”
– Álvaro de Campos






Foi uma manhã de pouco significado. A noite deslocou-se longa em seu corpo, o lençol arranhando a pele e incomodando o seu balançar, o pé que a nina e a encaminha ao sono profundo. Foi na linha tênue da alvorada, rósea e aérea, de linhas azuis espairadas no ar frio da madrugada que reabriu os olhos ainda cansados. Respirava a garoa fina, o lacrimejar da escuridão. Pisou no frio cinza de cimento liso e lustrado choramingando, ainda anuviada pelas escolhas dos últimos tempos. Caminhou pelo velho corredor rumo à cozinha, buscava sempre os passos perdidos da infância naquele corredor, repletos de pululos e brincadeiras solitárias.
A água já no fogo, o café cozendo devagar. Já se tinha os ares da manhã naquela cozinha. A claridade do dia já transparecia no céu quando percebeu a porta da área aberta. O chão de terra, o velho quintal. No toco de lenho, no pito de madeirinha, a velha mulher de toda a sua vida. Era ela que trazia o amanhecer, tecia em seus trapos a linha da memória de todos os seus tempos. Era sempre assim que começava a jornada, naquele cheiro de café que vinha junto dos raios de sol e entrava, pouco a pouco, nas frestas das portas dos quartos da casa antiga. Sempre fora dela o privilégio de trazer vida àquela casa.
Bateu com a mão na coxa gorda de senhora matrona para aproximar a menina, já não tão pequena. Encostou as mãos em seus joelhos redondos e sentou o bumbum no chão vermelho de terra seca olhando para cima – era ainda seu olhar de menina que escondia desconfiança das chamadas daquele dilúculo. Tirou o pito da boca, olhou a menina nos olhos, apontou a cabeça com autoridade própria. Foi tudo o que precisou para trazer as lágrimas temporais daquela infante presa naquele corpo tão cheio de curvas e anseios. Deram-se todos os dizeres do coração lastimoso no gotejo dos olhos, na boca úmida de vontades e palavras tristes. Foram todas aquelas brincadeiras que perdeu dos irmãos maiores, foram todas as surras injustas da mãe-madrasta, todos os vazios do pai ausente dos cômodos da casa, foram todos os amantes dos seus pensamentos e do seu corpo, todos os rechaços e despedidas, todo aquele imenso desencontro e suspensões. Tudo ficava na barra da saia branca que apoiava o rosto contorcido.
A mão pesada tocou-lhe os cachos enrolando seus cabelos com os dedos grossos e nodosos, por três vezes apertou sua cabeça no carinho rústico de moderação e sobriedade. Soluçava aquele corpo jovem, sofregava aqueles lábios firmes. O pito voltou para a boca idosa. Os raios do dia iluminavam, devagar, a terra rubra. Ela, mesmo pequena como era, olhou para a fumaça que saía do cachimbinho e, secando os olhos, pode assistir a estória que já se contava naquela névoa. Era, em todo aquele silêncio, a extensão dos lampejos da sua reminiscência. Insurgia votivamente, composições iluminadas, as criações furtivas do desejo espontâneo e das canções. Ela sumia na bruma do pito fino da vó-velha, naquele fumo cantador dela própria.
Bateu no braço, assim, de repente. Ela levantou ainda pequena, ainda perdida. Da boca da velha veio a ciranda, das palmas das mãos a batida ritmada. Havia ancestralidade naqueles pés descalços. Dançou a menina-moça, dobrou os quadris enquanto o menino passava com a lata de leite vazia e acompanhava a batida com um pedaço de pau. O vermelho da terra levantava, os pés daquela moça mudavam de cor, o sol agora era multicolor. Apoiou as mãos nos quadris e girou com uma força desmedida, as mãos foram subindo deslizando pelos seios, o pescoço, o rosto molhado de choro, os cabelos nervosos da cabeça. Estendeu os braços, as mãos estavam lá no alto e ela ainda girava e a canção ainda durava e a batida ainda se dava. Era para ela, se dava para ela e, ela, se encantava para ela.
Suspenderam os sons do dia. O dia raiava e crescia. Abriu bem os olhos para o compasso daquele seu tempo. Olhava a vózinha pequena que estava em pé ao lado do lenho que ela sentava para fumar seu pito do dia – era um na manhã, um na noite. Os braços ainda estendidos, o rosto ainda marcado, a água ainda saindo dos olhos. Veio bem devagarzinho tomar o abraço e a benção. Apertou com carinho a velha pequena e ela foi entrando, foi nutrindo foi sumindo no abraço do peito. Ficou lá, naquele toque singular dela com ela mesma. O dia pronto para dar e o café pronto na cozinha.








Morena Cambará publica no blog : http://ilissos.blogspot.com/

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