26.7.08

Maurício Chamarelli Gutierrez

Comentário: Maurício Chamarelli volta-se no tempo, no tempo ósculo de sua alma, recolhe-se no amâgo e nos deslumbra com um sentimento vasto de atmosfera onde o corpo e a voz batalham na linha das palavras o anseio de torna-se tão concreta e tão sútil quanto o fogo e a pedra, é uma voz nova que surge e desde já enriquece nossos campos, suas metáforas belas e simples discutem simbolos primevos e míticos numa linguagem confessional reflexiva e por vezes lamentosa, mas que ainda sim rompe a cadeia do instante mais presente para invadir o inacessível.






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Três fábulas

A primeira

A vida inteira atrás de si e à sua frente. Tantas eras depois e antes dos seus passos, singelos, a singrar o longe do tempo.
Agora aquele corpo inerte, aquele menos possível, marco pontual da finitude.
Enveredando pelo último labirinto, derradeiro imenso labirinto da morte, pequeno como um ataúde que se lança ao mar.

Depois das guerras, quando a ferida do mundo foi exposta, a terra não quis mais abrigar seus filhos.
Os homens, a mando dos sacerdotes, alagaram os descansos. E todos os mortos passaram a abraçar o mar.

Assim desde sempre. Para sempre assim. Do outro lado daquele imenso azul uma outra ilha, tão maior do que esta, se revelava hospitaleira e abrigava, espaço de reanimar, aqueles corpos que o sal da terra tornava quedos. Era assim. Haveria de ser assim. Fora assim com todos os seus antepassados, voltaria a ser assim com ela.
Era o que dizia seu avô. Ao que o pai, com um aceno claro e um ruído gutural, confirmava: tudo o que morre o mar acolhe.

Mas ainda não fora sua vez.
A peste que assolava a vila – seria anúncio ou castigo? – levara, tão jovem, o consorte.
O colo inchado, o desconsolo do tempo, dois meses de espera até que a balança voltasse ao equilíbrio no mercado da vida. Paga-se caro.

A vontade, a vontade de lançar, de lançar-se.
Pra nem dizer de quem semeou espera e colheu solidão, nem dizer na areia o vento apagando os rastros. Nem da certeza, a pior, de coagular. Seria, melhor talvez, seria jogar-se. Ao mar engolir-se enquanto é tempo, fel na boca enquanto há paladar. Sal. Na ferida, enquanto há. Antes que o limo do esquecimento parasite a última embarcação, talvez fosse, talvez fosse um soluço a desdizer, revoltoso, o mando do tempo. E unir, profanamente, dois corpos, já quase três, em núpcias de sereia.



Já todos a dizer esperas, formalidades de viúva a quem o amor pouco conheceu.
Dias. E noites. Isolamento e um jejum, interminável, sobre a areia. Vento frio de nada trazer; o sol e mais sol secando nas costas o orvalho. E mais orvalho.

E nada a preparar o corpo.
As intempéries acabariam por lhe levar o filho.



Mas não. E o vento, que nada anunciava, deu de trazer. Estava ali. De repente, ali. Estava, retornado, o caixão há pouco lançado ao mar. Nenhum caixão jamais retornara. Haveria de ter renunciado às ilhas além do azul e às suas promessas. Mas... sim? Como? Nenhum caixão jamais voltara. Aquele não, estaria vivo? E ela mesma, ela, sentenciara o fim. Horas de bruços sobre o corpo gélido. O que diriam, o que diriam, talvez, o pai? O avô?

Não lhe restituiriam jamais o que perdia naqueles instantes na praia.
Já os dias jogados ao horizonte, o silêncio, a barriga pesando.
Os olhos, os olhos sem descanso, dardejando obsessivamente o caixão. O peito de rebentar terrores. Mas conteve-se.

Um momento, tirou os olhos de sua atadura fixa. Mirou o mar que acolhia o sol e lhe devolvera o marido. Imprestável.

Quatorze lavouras atrás de si, o corpo dando notícia da colheita mais sutil que se aproximava. Nasceria nela um filho da incerteza.

Jamais lhe restituiriam, quando a última nesga de sol havia abandonado por completo o céu, um derradeiro olhar na caixa de madeira largada na praia.
Poderia já chamar o pai o avô os sacerdotes. Poderiam falar-lhe.

Sem bem saber o luto acabado, caminhou para a vila. Na certeza de que nada aconteceria.










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Passos de gigante

Ponho-me a chorar com os braços. Encosto em ti e é a seiva da minha vida que escorre em teu rosto. O mundo jamais será o mesmo nunca é ou foi a vida, o tempo, o estômago embrulhado. Talvez parar, pensar, rever os desejos. Como é, como foi, de novo setembro a me oferecer seus labirintos.

Não. Não hoje. Agora a vida pode ficar parada. Ficará parada. Sem caminhos de descobrir que já encontrara lá atrás, no primeiro sorriso clarão do mesmo sol que hoje alumia a fronte inexata, a testa confortável da face da mulher amada. Ninguém virá da China me redimir os passos.

Sento-me calmo. E minha sarjeta é a escadaria de Odessa, e a cama de meus pais, e habitação marítima, colo de sereia.

Talvez bastasse chorar. Recobrar as forças. Ou então me acorrentar ao trem de um desespero, uma saudade, uma saudade a me cegar os passos.

Talvez as coisas andem muito devagar. (As coisas andam muito devagar). Há coisas que andam muito devagar.

Mas o espaço talvez precise experimentar-se o imóvel. O ritmo das pedras, o ritmo obsessivo das rochas. Acatando sedimentos mais sutis, trabalho de erosões pacientes. As enormes esferas.

Não há nada meu nisso. Levaste de mim para sempre o meu nome. Tão mais doce nos teus lábios que partiam, entregue, inteiro, ao corpo da tua voz.

Mas não volte. Ninguém virá me restituir a alma perdida.

No primeiro passo pra fora da casa, primeiro toque pra dentro do corpo, primeiro grito pra dentro da vida. Eu fiquei lá. Justamente onde eu não havia e ter havido o momento que levou de mim o que nunca tive ou quis ter não é benção ou maldição.

Hoje, teimoso e imóvel num banco de praça, num corpo nunca havido, na espera, no vômito, no grito, no chão duro, na sarjeta, no instante, na eternidade nascendo a cada passo.

Gigantes são aqueles cujo passo não se percebe.














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Maurício Chamarelli nasceu no Rio de Janeiro em 1984 onde mora até hoje. Escreve, tendo publicado, pela Oficina Raquel, em 2006, o livro de poemas Corpo Tênue e, de lá para cá, alguns textos em sites e revistas virtuais ou não.

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