26.7.08

Marlos Degani

Comentário: Marlos Degani nos agraciou com estes dois poemas inéditos que manifestam com clareza e beleza a sua poesia rica nos gestos das imagens e da rima, além da riqueza metafórica e do seu pensamento sobre a poesia que ele revela no poema "Algo em Mim". Degani trata do poeta com a poesia como um ato fracassado, ao sugerir que a poesia esta sempre em falta para o poeta, ou seja, por mais que alcance palavras, que busque as palavras ainda muitas estarão em falta na linha do poema, o que me lembra um pensamento de Borges quando disse que o poema preexiste, se o poema preexiste antes do tempo e antes do homem, o poeta alcança esta região num respirar deste mundo platônico talvez, mas sempre eterno, no entanto, embora alcance-a o tempo rouba-lhe as formas poéticas e então seu anseio é voraz...













ALGO EM MIM

Será o poema, enfim,
o que vagueia nômade,
sem sombra e sem nome
por dentro e fora de mim,

bem camuflado entre a matéria
— viajante silencioso, esmo,
ligeiro e que até para mim mesmo
esconde a sua identidade secreta?

Será ele o agente que desbrava
minhas vísceras, meu alfabeto
e por meio desta forma alinhava
o meu ser e sina por completo,

tecendo uma longa colcha de retalhos
com meus versos fatalmente fracassados,
para que depois eu morra asfixiado
nesta mortalha sem nunca tê-lo achado?

Será ele, sutil, o que insiste em travar
longas batalhas às bordas da madrugada
entre o papel branco e a provável palavra
que nunca estará, de fato, bem colocada,

pois decerto haverá uma outra agendada
nestas hostes que são sibilinas e fantasmas,
donas de um tempo, das horas enfeitiçadas
quando se cai do cavalo e ele na gargalhada?

Será ele que lacera, que blasfema... O poema
é que leciona em minh’alma e, eterno, me algema?









IMPASSE

Mesmo depois de tantos fracassos
postos em mil versos obtusos, fechados
em gritos que lancei para dentro do peito,
que ainda ecoam teimosos e rarefeitos,

reverberados num vazio que acoplaria oceanos,
um buraco negro faminto das tuas curvas brancas
que nenhum ouro ou pele acalma ou amansa
este verdadeiro e escuro ocaso da esperança.

Como posso viver o próximo instante,
mover-me aos desafios que o dia apresenta
se apenas trafego entre as grutas errantes
a conjurar pelo teu beijo que me sustenta?

Como enfrentar esta noite cheia de lua
se não tenho a qualquer coisa que é tua
mas que aborta a visão de um gozo infinito
e censura o meu sonho quando o decreta proibido?

Como faço para desta morte profunda despertar,
se somente tua boca é a que carrega (leve a levitar
um mel que jamais provei mas que quero provar)
todo o fogo da minha alma e o oxigênio do meu ar?










Marlos Degani é autor do livro Sangue da Palavra, livro que concorre este ano ao prêmio Jabuti de Literatura, é membro do grupo de poesia Desmaio Públiko em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.

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