25.7.08

Leandro Jardim

Comentário: Leandro Jardim é um poeta de refinado estilo, demonstrando um dominio e um saber da forma da composição poética que alcança um embelezamento na simplicidade e na musicalidade interna do poema, recentemente escrevi um ensaio sobre seu livro "Todas as Vozes Cantam" que ainda estreiará na revista Cronópios, porém aqui, trancrevo algumas linhas da minha impressão de sua escrita, esta parte que transcrevo centra-se num poema seu, focando seu pensamento, o qual é de todo poeta que crê na poesia: "o poeta desmetafisica o Belo e o encarna na forma do homem (urbanóide em caos psíquico), o belo converte-se no sentimento, mas este não é a mensagem central do poeta, antes ele declara : “algo a dizer é o que espero”, e porque ele isto diz? Trata-se de uma critica a poesia contemporânea que cada vez torna-se mais vaga de conteúdo significativo não oferecendo nada ao leitor e ao homem, mas apenas uma poesia vazia, vazia e cada vez mais vazia,... A declaração do poeta não apenas é uma confissão apaixonada, mas, sobretudo, a demonstração da verdadeira razão poética “algo a dizer”, sendo esta sua paixão, entendo que a razão do seu incômodo mais intimo seja a falta que percorre a artéria poética atual." Os poemas abaixo estão presentes no seu livro.










Presente Do Subjetivo





Tenho tendência pra variedades.
Me visto em quase-outros em função dos entornos.
Absorvo transformações por contextos.
Possuo um eu pra cada um.
Em verdade, minhas verdades se multiplicam para ajustes.
Na minha mais pura verdade.
Eu jogo de futuros com quem converso.
Minhas mentiras também são puras.
É por isso que entendo os desentendimentos comigo
[que tenho.
Pelo mesmo motivo que não entendo os entendimentos
[que prenho.
Sou meio esponja meio pilha alcalina.
E sigo por outros meios.
O ar que expiro também tem oxigênio.
Toda atmosfera é um pouco promíscua.
E eu, átomo e fera e outros e.
Mas, por ora, só palavras mesmo.
E a esmo.
Mas só por agora.










Urbanismo E Natureza





Sou filho mesmo dessa urbanidade.
Fruto, solo e adubo.
Ou seria fumaça, asfalto e cimento?
Fico como flor de plástico, por enquanto.

As paisagens, a natureza de que preciso
- pra não esquecer minhas animalidades -,
encontro nos livros em que leio.
Nesses tais universos que se contam pelas matas e bichos que
[contém.
Que infinitam em diversidades de espécies, coisas e
[significâncias.

Sou grato a Pessoa(s) e a Barros.
Aos poetas todos e seus livros-vôo.
Essas janelas de teletransporte que ora me chamam.
Esses álbuns de fotografia impressionista que ora me bastam.

Mas preciso das galerias intangíveis na velocidade cortante
[dos viadutos.
Encontro meus contrastes nas oscilações filtradas desse
[tempo-espaço.
Construo preenchimentos do ruído mudo desses templos
[escassos.

Quando a paz me pousa, por um domingo aos pedaços que
[seja:
ouço gorjeio no ronco dos motores,
vejo édens espreitando por entre pernas em calçadões,
meu céu da boca não reclama de arranha-céus (que até fazem
[cócegas).
E a brisa da manhã também se faz nos velhinhos das padarias.

A desaceleração reveladora me abre por olhos novos.
E é filha da correria.
Minha natureza é a natureza que é minha.








Leandro Jardim é carioca, poeta, letrista, compositor, comunicador e outras coisas mais em que o transforma o tempo. Recentemente lançou Todas as vozes cantam (7Letras, 2008), seu primeiro livro publicado oficialmente. Antes, porém, ele já havia editado de forma semi-artesanal e independente seus minilivros de minipoemas Gotas e Petálas, da série de 2006 que chamou de Poesia Presente. Série essa que já começa a ser ampliada com obras de outros autores como a Nathalie Lourenço que em 2007 apresentou seu Lusco-fusco no mesmo formato, editado pelo Jardim. Colaborador em diversos blogs Leandro Jardim centraliza sua criação no www.florespragasesementes.blogspot.com que apresenta links para seus diversos trabalhos.








Nenhum comentário: