25.7.08

Joyce Rodrigues

Comentário: Joyce Rodrigues, estréia neste blog com dois poemas que centralizam sua maneira de escrever e pensar o ato poético, ela expõe sua forma de ver o mundo por uma ótica filosófica provocante, questionando o mundo e seus conceitos chaves que permeiam a realidade histórica a séculos numa linha pessoal e com voz, apresentando um mundo doente e hipócrita instigando suas bases com irônia e imagens definhantes.






Presente de Grego






Desde de que fomos homens fala-se um livre-arbitrio

mas nunca em só um homem tantas birfucações.


Punha-me a trilhar a vida como quem a vive

mas para isso quantas vezes não tive que assassiná-la.



Viva vida pós vida!



Podia eu estar sozinho, quieto,

de preto numa parede preta

que lá estava ela;



Na minha fente uma bifurcação

Numa plaquinha escrito livre-arbitrio.


Olho para um lado; névoa rubra e uma quentura espetava-me a alma,

sendo inevitável não recuar...


Olho para o outro; brancura daltônica e sombria,

rodeava-me de rostos santificados e punidores,

sendo inevitável não recuar...


Sem saída, me encontrava no vão central da ponte Rio/Niterói.

Não sentia fogo nem brancura

e sim uma brisa que parecia ninar-me ao colo...


Não fui eu quem escolheu,

mas pulei naquele concreto de água abaixo.


Viva vida pós vida!




Acordei sozinho, quieto

de preto numa parede preta...


Um minuto após estava lá, a plaquinha escrito livre-arbitrio a me encarar.

E... não fui eu quem escolheu,

o tapete carrasco sugava-me

eu pulava!



Viva vida pós vida!


Punha-me a trilhar a vida como quem a vive...

-Discurso errônio num pano de fundo errônio...


Uma reciclagem a vida...

Pessoas pequenas que tornam-se sentimentos negros que tornam-se más escolhas que

tornam-se tapetes de pedra, que tornam-se pessoas pequenas que tornam-se

sentimentos negros que tornam-se más escolhas ...







Kamikaze



Saindo desse mundo fértil para o descampado do meu plantio.

Eu planto o que já foi morto a fim de que brote o além.



Navego nessa doentia estrada

remota, sugadora, onírica, nociva...


Passos-bomba, eu já explodi tudo!



Traço outro plano

deixo pílulas tarja preta como rastro.

Vi um passarinho sorrir pra mim hoje

depois percebi que ele tinha engolido uma pílula...



Ninguém ri São no meu mundo.



Alguém no meu rastro...

Navego pelos vermes brotados, estou seguro ali.



Mas um caiu na emboscada

Sorri pra mim, ele está anestesiado...


Ninguém não anestesiado sorri pra mim no meu mundo.

Eu salto do barco


Passos-bomba eu explodo tudo!



Peguei os restos e pus numa moldura no meu barco.

Fiquei lá esperando o próximo...



Sorrisos-bomba

só tem sorrisos-bomba no meu mundo...








Joyce Rodrigues, 26, é poeta, revisora e professora de Literatura em lingua Portuguesa, participa do grupo de dramatização poética "Carpe Noctem".

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