9.12.07

Procurando a Causa (Miguel Piñero 1946 - 1988)



Ele estava morto, jamais viveu, ele morreu, morreu procurando a causa por que dizia nunca ter visto a causa. Mas, ele ouviu a causa, ouviu o choro de fome de crianças do gueto, ouviu as advertências de Malcolm, ouviu os tratores construindo novas rotas para novas prisões. Morreu, procurando a causa, procurando UMA causa. Já estava morto, jamais viveu –nos bairros nobres, no centro, nos cruzamentos – seu corpo se encontrava por toda a cidade


procurando a causa crendo que a causa era $75 dólares por sapatos de caimán, crendo que a causa era vender pó branco para crianças negras, crendo que a causa estava numa rosa cigana ou JB’s ou cantando no parque depois de fumar maconha.


Morreu, procurando a causa, a causa morria procurando ele, a causa morria procurando ele. Queria uma tv a cores e um terno de seda. Queria que a causa viesse como os Mets e arrasasse o campeonato mundial, ele queria, ele queria, ele queria, ele queria querer mais.


Mas ele jamais deu, jamais deu, jamais deu, jamais deu seu amor a seus filhos, jamais deu seu coração para seu povo e jamais deu sua alma para seu povo. Jamais deu sua alma para seu povo por que estava ocupado procurando a causa. Ocupado, ocupado, aperfeiçoando sua voz para cantar o hino nacional como Spiro T. Agnew, ocupado aperfeiçoando sua gíria para que não fosse notado seus defeitos, ocupado aperfeiçoando seu discurso "Viva la policia".


A causa estava em sua fala e a causa estava em sua pele e a causa estava em seu sangue, mas, ele morreu, morreu procurando a causa, Procurando Uma Causa.
Morreu surdo, mudo e cego e morreu e jamais encontrou sua causa por que nunca , vejam, nunca nunca compreendeu que ELE era A CAUSA.



traduzido por Anderson Fonseca

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